Suely Torres é ótima. Sua cria, o Museu da Migração.

Entrevista concedida ao Instagram da FIBRA

Autor: Flávio Carvalho, sociólogo e escritor.
(@1fláviocarvalho)
Barcelona, 10 de abril de 2021. Para a Fibra.

“O trem que chega é o mesmo trem da partida” (Nascimento, Brant).

Brasileira, pioneira, em Berlim.

Vamos ao “seu” Museu?

Danada, ela insiste em algumas coisas que qualquer um de nós poderia discordar, se não a conhecêssemos melhor por meio dessa conversa, solta e descontraída, para a Fibra.

Assista aqui: https://www.instagram.com/tv/CNf2l5sKc57/?igshid=xwtqe9omw78

A que coisas eu me refiro?

Primeiro deixem-me mencionar um belíssimo filme chamado Ondina, onde uma educadora do Museu de Maquetes (miniaturas) de Berlim nos faz uma visita guiada cinematográfica. Em determinado momento, ao assistir esse filme, senti-me (eu mesmo) como a cidade, capital da Alemanha: ao longo da história, aquele museu tratava principalmente do que eu, a cidade, queria ser… Não do que eu já era, o visitante, mais do que eu queria ser. Importante.

Pois voltemos à museóloga, Suely. Este título, de museóloga, o concedo eu, do alto da minha falsa prepotência. Ela, Suely, insiste na humildade e em tirar-se o protagonismo do projeto que (ela sabe!) tem a graça da sua persistência como mulher, migrante, ativista cultural, cultivadora de imagens… Afinal, nos convence. Logo, porque ela estudou curadoria artística para aprender a dar o “recorte” que um bom projeto merece – e pra fugir do “lugar comum”. O Museu da Migração não existe somente pra contar histórias de vida, como um dos museus mais importantes do mundo, o National Immigration Museum, em Nova Iorque. O seu projeto é muito mais, propondo menos. Uma exitosa decisão metodológica, a meu ver.

O curioso é que a própria história de vida dessa pernambucana já daria um bom livro.

Mas não é disso que se trata, por enquanto.

Nessa entrevista, compreendemos e nos identificamos com o eliminar algumas letras iniciais: o I de Imigrante, o E de Emigrante e outras tantas categorias binárias, como bem diz Suely.

Tenho absoluta certeza que um migrante (como eu, como ela), se identificará plenamente com a narrativa que nos propõe.

Conhecer o DMM – Deutsches Migrations Museum, de forma virtual, como se propõe, não é nada mais que re-significar a própria concepção de Museu, “aquele lugar de guardar velharias” (perdoem a necessária menção à imbecilidade).

Quando pensava que já tinha tudo, naquela ideia que a perseguia, Suely embarcou mais ainda atrás do sonho: estudou antropologia, além da curadoria de arte; integrou-se, como podia, ao (excelente!) Museu da Pessoa, em São Paulo; rebuscou arquivos de (i)migrantes na Alemanha e de (e)migrantes alemães pelo mundo; comprou briga, enfim. E ganhou. Aliás, ganhamos nós.

A proposta do Museu da Migração é alteridade: que o outro se pergunte ao (des)conhecer o interlocutor, ao migrante, sempre “mais por dentro” do que a gente pensa. Mais dentro de nós do que imaginamos. Afinal, o que é isso mesmo: migrar?!

Conheci Suely no Encontro da Fibra, em Berlim, em 2019, deliciando-me com sua exposição de fotos na Fundação Rosa Luxemburgo. Depois soubemos que viemos, eu e ela, de tão perto, em Olinda, Pernambuco, que não descartamos tratar-se de um reencontro. Quem sabe?

E acabo este texto como a conversa que os convido a assistir na íntegra. Até porque esses vídeos gravados no Instagram da Fibra duram pouco, mas são intensos em conteúdo e formato.

Saudades imensas de um Ministério de Cultura, do Brasil, que abriu um inédito edital, anos atrás, para projetos de museus de brasileiros no exterior, apoiando-nos. Chamavam-se Pontos de Memória. Apresentei e ganhei o segundo prêmio com um projeto semelhante ao de Suely. Mas gosto muito de reconhecer que este, “o seu”, é imensamente melhor. O Ministro era Gilberto Gil. O nome do Presidente era Lula. Eram outros tempos. Evidentemente.

www.deutschesmigrationsmuseum.de. Não deixe de entrar na website do Museu.

www.suelytorres.com e também nesta website, de Suely. Mas que ela não saiba que eu também recomendei a sua página pessoal, como excelente fotógrafa que é. Como eu já disse, ela insiste que o protagonismo é do Museu. A pernambucana é humilde, mas é valente. Ainda bem. Senão não haveria (não haveríamos) chegado até aqui.

Viva o sonho de Suely!